18 de abril de 2024
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Antiella Carrijo Ramos – Começo Meio Começo

 

Estava certa que escreveria a minha última coluna, publicaria ela nas redes sociais e marcaria o encerramento de um ciclo. Não quis escrevê-la antes, estava atravessada pela dor e pela tristeza causadas pela morte do jornalista Sérgio Fleury Moraes. Ele era um amigo, um companheiro de muitas lutas, com quem compartilhei sonhos e ideais de uma cidade humanizada, justa e com a periferia integrada.

Sérgio também era o editor do Jornal Debate onde eu escrevia uma coluna semanal, sobre temas do meu interesse. Além disso, as inúmeras entrevistas concedidas ao Debate, sobre o meu trabalho no CRAS Betinha, fortaleceram o nosso vínculo e possibilitaram a construção de uma relação de amizade e admiração.

A verdade é que a cobertura jornalística, realizada pelo Debate sobre os projetos do CRAS e das lideranças comunitárias, permitiu que a Divinéia e o Bom Jardim conquistassem espaço e voz para além das páginas policiais. As comunidades da periferia da cidade, pela primeira vez, tiveram a oportunidade de contar suas histórias de luta, trabalho, amor e solidariedade, gerando o sentimento de orgulho e pertencimento, apesar das dores da desigualdade social.

Quando estreei no espaço jornalístico, em agosto de 2020, meu primeiro texto falava sobre sonhos e utopias, resgatava as memórias de um tempo em que eu ainda acreditava que utopias eram sonhos inatingíveis e irrealizáveis. Lá contei que foi necessário conhecer José Paulo Netto, num congresso na universidade, para compreender que utopia é o vir a ser, é aquele lugar ideal que construímos durante toda a vida. Utopia é forjar coletivamente um mundo em que todos tenham o direito de sonhar e condições para realizar.

As minhas utopias e o desejo de conceber novas formas de ser e estar nutrem e sustentam a minha escrita. Quem me conhece ou acompanha o meu trabalho sabe que escrever sempre foi um sonho da Antiella menina e a possibilidade de deixar de fazer isso me colocou num estado de tristeza que já estava arrasado pela dor do luto.

Mas o que parecia ser o fim, foi um novo começo e quando eu menos esperava, uma nova janela se abriu e cá estou eu escrevendo novamente para vocês. Antônio Bispo dos Santos, filósofo quilombola, conhecido como Negô Bispo, estava mais do que certo, não existe o fim, a vida é começo meio e começo e por isso digo para vocês: estou feliz em viver este novo começo.


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3 thoughts on “Antiella Carrijo Ramos – Começo Meio Começo

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